By : Novembro 28th, 2021 #umdiadecadavez 0 Comments

No bairro de Alfama, na “costa do Castelo” ou mais abaixo, quase escondido no pequeno corredor que desce as escadas do largo das portas do sol, deixa-se cativar pela voz comovente de Ruca e o seu fado.


Natural de Leiria, Ruca Fernandes descobre o fado por volta dos 20 anos por puro acaso. Durante um banquete de casamento, assiste a um espetáculo de fado, e é imediatamente amor.

A partir desse momento começa a ouvir os discos de fado do pai, a aprender a letra e a cantar. As primeiras vezes que o faz em público é nas noites de Karaoke, altura em que descobre que o fado está entre as músicas disponíveis e começa a cantar.

Há quinze anos descobriu o fado vadio (fado de “rua”, aquele que se costuma cantar nas tabernas) e decide experimentar. Aprende um fado, “A moda das tranças pretas” e aparece uma noite na Tasca dos chicos e pede para cantar. Poucos minutos para combinar a tonalidade com os guitarristas e a sua voz se expande para o lugar.

Ruca começa a cantar fado com mais frequência e passa a ter contactos com outros fadistas e é assim que em 2007 se apresenta na “Grande noite de Lisboa”, um espectáculo especial dedicado ao Fado. Participa ainda em dois concursos de canto, “Concurso de fado de Odemira” e na “Costa da Caparica” e vence os dois.

Ruca também começa a participar em visitas guiadas dedicadas ao fado, onde a emoção da sua voz se junta à história dos guias.

Lembro-me da primeira vez que o ouvi cantar: foi num restaurante de fado, onde o Ruca cantava acompanhando-se a viola como ainda hoje. Lembro-me da emoção daquela voz e de como o seu talento mexeu com os turistas que acompanhei naquela noite. Quando voltei a encontrá-lo e a conhecê-lo melhor, descobri que por trás dele há uma pessoa extremamente tímida.

E aí pergunto como ele faz, como consegue dominar a timidez e cantar na frente de tanta gente. E o Ruca confessa-me que o Fado é quase uma terapia.

No momento em que pega a sua viola e começa a cantar, entra numa outra dimensão, se transporta para um plano diferente, onde não há timidez, onde não há ninguém olhando para ele, onde só existe ele e sua música. E não é por acaso, me explica, que os fados que mais gosta de cantar são os mais melancólicos e tristes. Afinal, dessa forma ele consegue expressar o que sente, canalizando a sua alma para aquela música. Porque cantar fado é expor-se à emoção, a sua e a de quem te escuta, sem filtros. Afinal, no fado, antes mesmo da técnica, a alma é importante, e a capacidade de transmitir a emoção.

Quando explico o fado a quem nunca o ouviu, sempre digo que não importa compreender as palavras, nem o facto de o cantor ter uma técnica vocal perfeita. O que importa mesmo é que quem está cantando pode fazê-lo sem barreiras, sem filtros, para que quem ouve ouça a sua alma.

 


Ruca concorda que o fado é uma música universal, que todos podem compreender sem apreender as palavras e o seu significado, porque é pura emoção.

 

E, pessoalmente, conheço bem esse sentimento porque eu própria muitas vezes me comovei, muitas vezes às lágrimas, a ouvir fado, mesmo no início sem falar português. E com o Ruca já me aconteceu mais de uma vez. Porque quando ele canta, sente-se que está cantando com o coração. Para ele, a música é tudo.

 


Quando lhe pergunto como é quando consegue comover as pessoas assim, ele me diz que  naquele momento acha que ele fez um bom trabalho, porque isso significa que sua música atingiu o coração das pessoas, até o seu lado mais íntimo.

Enquanto falamos, ele para de vez em quando, pega na viola e começa a cantar. Como se a sua alma estivesse “possuída” pelo fado e ele não pudesse deixar de o cantar. A nossa conversa é agradavelmente interrompida várias vezes por estes momentos, em que, para se dizer melhor, o Ruca tem de se exprimir através da música.

Então começa a tocar, fecha os olhos, e a sua voz começa a ecoar pelas ruas de Alfama, cantando um fado, “Com que voz”, poema do poeta Luís Vaz de Camões, cantado pela célebre Amália Rodrigues.

E as pessoas param, uma após a outra, fascinadas por aquela música e sobretudo pela voz do Ruca.


Faz alguns dias que o Ruca começou a cantar na rua. Há menos trabalho nas casas de fado durante este período. Mas o Ruca faz isso antes de mais nada para estar em contacto com as pessoas, afinal o fado é também isso, transmitir emoção cantando entre as pessoas, num ambiente absolutamente intimista.

O Ruca confessa-me que o seu maior sonho seria ser convidado para cantar fado no estrangeiro, ser um embaixador desta música. E nós lhe desejamos isso. Afinal, muitas coisas mudaram desde os seus primórdios: agora podemos ouvir com frequência a sua voz na Rádio Amália (rádio dedicada a fado, n.d.r.) e já lançou dois discos, em 2008 e 2018.

 


Mas há sempre novos desafios a sua espera. O Ruca diz-me que cada dia para ele é um desafio pessoal, consigo próprio, melhorar-se, poder chegar cada vez mais à técnica, cantar fado cada vez mais complicado, transmitir cada vez mais emoção.


O Ruca me conta que no início foi a uma casa de fado pedir informações sobre onde o estudar e o porteiro dessa casa perguntou-lhe em que o podia ajudar. O Ruca disse-lhe que procurava uma escola para aprender fado. E então aquele senhor disse-lhe que “o fado não se aprende, nasce-se  fadista”.

Certamente, como diz o Ruca, é preciso saber aperfeiçoar e cuidar da sua técnica também, mas concordo com aquele senhor “Se nasce fadista”.

Há uma emoção em cantar fado que o tens ou não tens. E não podes o aprender. E o Ruca tem isso.

Basta olhar para a atmosfera que se criou ao nosso redor nesse ínterim. O sol já se pôs, já é noite nos becos de Alfama.

No pequeno trecho entre duas ruas onde paramos para conversar com o Ruca, uma luz fraca se acende. O Ruca está a cantar “Gente da minha terra”, um dos meus fados preferidos. Na escada que desce para Alfama as pessoas começam a parar. Uma pequena multidão se forma, mas todos estão  em silêncio. Ninguém se atreva a interromper a magia que Ruca conseguiu criar. Como se naquele momento todos estivessem prendendo a respiração, tocados por aquela emoção que a voz do Ruca transmite. Continua cantando, de olhos fechados. Ele não sabe quantas pessoas pararam, não as vê. Nesse momento não há lugar para nada nem ninguém: só existe ele e a sua voz, a sua música, o seu fado.

By : Novembro 16th, 2021 #umdiadecadavez 0 Comments

Hoje é um dia chuvoso em Lisboa, um pouco cinzento, de outono. Mas o nosso dia, o meu e o de Alex, está prestes a ser alegrado por um feliz encontro.

Christian, um antigo amigo de Alex, vem ao nosso encontro com o seu animado cachorro Chopin. E sim, Chopin, como o famoso compositor. Claro, um amante da música como ele não poderia ter escolhido nome melhor.

Christian, Christian Lújan, é na verdade um barítono com uma bela voz. Mas ele também é um artista com mil talentos. Pronto para descobri-los juntos?

Christian, de origem colombiana, chega a Lisboa por acaso.

Aconteceu há 15 anos, quando aos 21 anos segue a mãe, que, após o divórcio, decide vir para Lisboa. A sua chegada não será das mais fáceis porque, como nos diz Christian, chegam sem visto e vão ficar 6 dias no aeroporto de Lisboa à espera de saber se podem entrar ou não no país.

Quatro meses depois, Christian entra no Conservatório Nacional, onde começa a estudar canto lírico. Também começa a frequentar a Faculdade de Musicologia do FSCH, mas sem concluir o curso.

A música era agora o seu caminho e Christian nunca vai parar de segui-la.

“Mas como começou?”, Pergunto- lhe. De novo por acaso.

Christian é originário de Medellín, região central da Colômbia, não exatamente um país onde a cultura da ópera pode ser considerada particularmente enraizada. Ele cresce com duas formações diferentes: sua mãe é adventista (Igreja Adventista do Sétimo Dia, ndr), mas Christian frequenta a escola salesiana da sua cidade, é vegetariano em casa, come carne na escola, em casa o sábado é respeitado como dia de descanso, mas ao mesmo tempo passa a fazer parte do coro salesiano.

Nesse ínterim, ele também começa a tocar. Costumava-se introduzir as crianças à música com pequenos cursos e Christian descobre o contrabaixo que será seu primeiro instrumento.

E assim começa a sua ligação com a música: entre o contrabaixo e os salmos cantados com o coro durante a missa. Até que um dia alguém o ouve cantar. Antonio, professor da faculdade de medicina, mas apaixonado por música e regente de coro. Ele ouve algo diferente, especial na voz de Christian e sugere que ele comece a tratar deste seu dom. E assim Christian começou a estudar no Instituto de Belas Artes de Medellín e se abriu para o mundo da ópera.

Quando a mãe decide partir para Lisboa, para Christian é a oportunidade de chegar à Europa, ao continente onde a ópera e a cultura do canto lírico estão enraizadas há séculos.

E foi assim que começou, e foi em Lisboa e no seu conservatório que ele se dedicou a este novo mundo.

Christian ainda se lembra do seu primeiro trabalho e do seu primeiro papel, o de Pinnellino, o sapateiro de Gianni Schicchi de Giacomo Puccini, no San Carlo em Lisboa. Ele tinha 23 anos. Lhe pergunto o quão animado estava. Christian responde: “Animado? Não. Aterrorizado ”. Esta é a sua memória das duas primeiras apresentações. Mas, no fundo, ele me diz, é sempre assim. As primeiras apresentações são as do tremor, ansiedade, depois entras em cena, uma noite após a outra, e aos poucos começas a curtir o show e a emoção da música e da ópera.

 

Lisboa não será o seu único destino. Ele se mudará para a Bélgica por três anos e meio, onde se aperfeiçoará no Flanders Opera Studio.

E é na Bélgica que acontecerá a grande virada na sua vida amorosa. Vai voltar a encontrar uma colega, Mariana, de Lisboa, também cantora de ópera, cujo caminho já havia cruzado, mas sem acender a centelha. Duas pessoas diferentes na época, ela animada, ele numa fase que ele define como “boêmia”, não se conheciam. Mas o destino deu-lhes uma nova chance, na Bélgica, onde acabaram dividindo um apartamento e se apaixonaram. A história de amor deles já dura a dez anos e há alguns meses foi coroada pelo nascimento da terna Camila.

Christian já desempenhou tantos papéis, mas quando lhe pergunto quais são os que mais se identificou ou amou, ele não tem dúvidas: Scarpia (o “vilã” de Tosca) ou Marcello (o pintor de La Bohème), e os trágicos papéis da ópera romântica, especialmente a de Giacomo Puccini.

Hoje Christian vive da música, mas não pode deixar de se lembrar dos tempos em que se dedicou a muitos trabalhos diferentes e, entretanto, passou de uma audição para outra. Certamente uma situação cansativa no início, mas que nunca fez com que Christian desistisse, hoje ele fez conhecer o seu nome e sua voz especial no mundo da ópera e finalmente pode  viver do que sempre sonhou.

Mas a gama de nuances artísticas de Christian não pára na música e no canto lírico, e enquanto ele nos conta que começou a estudar para aprender técnicas de massagem chinesas, também fala sobre um projeto de fotografia. Ele faz questão de dizer que não é um profissional, mas as suas fotos realmente deixam-nos sem palavras. (Pesquise no Instagram @quotidianoss e julgue por si próprio).

O projeto é extremamente interessante: passar uma manhã com um estranho e fotografá-lo no dia a dia, no natural, nu. Eles não são modelos, mas pessoas comuns.

Christian sempre foi apaixonado por fotografia, desde criança, e conta quando aos 15 anos a sua câmera foi roubada com o filme ainda dentro e algumas fotos incluindo as duas primeiras fotos de nus. Desde então, este projeto ficou suspenso até hoje. Christian conta que teve que lutar contra uma série de preconceitos e que precisava de tempo para confessar, até para a própria família, que o nu foi o tema que escolheu para as suas fotografias. Um projecto que já dura desde cerca 5 anos e que nos dá imagens dum quotidiano natural, sem filtros, sem construções.

Um mundo a ser descoberto, enfim, o de Christian.

Nesse ínterim, a chuva nos deu um momento de descanso e Chopin não para de pular nas pernas de Christian: é hora duma caminhada.

E então os acompanhamos e aproveitamos para conversar mais sobre a vida, as muitas mudanças, os projetos do futuro e, sobretudo, sobre a nova e maravilhosa aventura da sua recente paternidade.

Aqui estamos, é hora de deixá-los ir, mas primeiro ainda tenho uma curiosidade: “E o contrabaixo?”

 Está pendurado na parede de uma fazenda na Colômbia. Quem sabe, um dia Christian vá buscá-lo, ou talvez fique ali como um sinal de onde tudo começou.

Antes de se despedir, Christian diz-nos que no seu futuro ainda há viagens, ainda lugares por descobrir e onde se desafiar. Afinal, a arte é uma evolução contínua. Mas entretanto podemos ainda desfrutar da sua voz nos teatros de Lisboa, uma experiência a não perder, a de nos deixarmos levar pelo ambiente mágico da ópera e pela voz melodiosa do nosso Christian.

By : Novembro 4th, 2021 #umdiadecadavez 0 Comments

Quando cheguei a Lisboa, um dos primeiros locais que visitei foi uma loja histórica mesmo na praça do Rossio, a Madeira Shop.

Lembro que o que mais me impressionou ao entrar nesta loja foi um casal idoso que me recebeu com extrema gentileza. Eram os donos deste local que, durante gerações, está nas mãos da família Abreu.

E então, para contar a nossa próxima história, decidimos ir lá.

 

De um lado da praça do Rossio, à direita de Pedro IV, que domina a praça do alto de uma coluna, entre lojas modernas e marcas internacionais, ergue-se a loja Madeira, inaugurada em 1959.

E para nos receber desta vez é a Ana, filha daquele casal que me acolheu anos atrás durante a minha primeira visita.

Ana começa a falar-nos sobre como nasceu este lugar, mas sobretudo sobre a sua família porque, logo descobriremos, as duas histórias estão intimamente ligadas.

 

Ana começa a contar e descobrimos que tudo começa com o seu avô, António Abreu, natural da ilha da Madeira que se muda para o “continente” com  cinco dos seus sete filhos (dois nasceram logo em Estoril). Ana conta que nunca conheceu o seu avô, pois ela nasceu quando os seus pais já tinham 41 e 39 anos, e o seu avô já havia desaparecido na época. Mas a memória daqueles tempos e de como tudo começou, a Ana herdou-o dos pais e hoje nos ajuda a reconstruir a sua história.

Quando a sua família se muda para o “continente”, estabelece-se no Estoril. Provavelmente para ficar perto do mar. Afinal, sabemos bem, quando se cresce numa ilha, cercada pelo mar, é impossível ficar muito longe dele.

A grande mudança veio em 1916 com uma personagem que foi responsável por uma importante mudança no turismo português: Fausto Figuereido, que, para além de lançar a construção do casino do Estoril, deu origem também à linha ferroviária que, com o tempo, irá ligar o Estoril a Lisboa. A consequência desta importante mudança será um importante incremento turístico que trará novos clientes internacionais à loja inaugurada nesta zona costeira.

A família Abreu começa a abrir mais lojas, a primeira no Estoril, logo uma em Lisboa, e seguiram mais uma em Sintra e mais duas em Lisboa, sendo a última o Madeira Shop, que será gerida pelos pais de Ana. Uma atividade comercial, mas acima de tudo uma herança familiar. Começada com o avô, depois com o pai de Ana e agora com ela e o marido João.

Ana conta que o seu negócio passou por várias crises, começando pela que se seguiu à revolução dos cravos de 1974 que acabou com a ditadura, passando pela crise da bolsa de valores nos Estados Unidos, a crise económica de 2008 e, finalmente, a pandemia do último período. Muitas provações e momentos de crise a superar, mas a cada vez conseguiram seguir em frente, sobretudo por orgulho, para não perder essa tradição que é tão importante para a sua família.

A Ana diz-nos claramente que a principal razão de continuarem com a tradição da sua loja não é o ganho financeiro, mas sobretudo a vontade de não interromper uma tradição familiar que perdura há muitos anos.

Vários produtos podemos encontrar na loja e são  de diferentes regiões de Portugal, mas acima de tudo um excelente produto que é também o que dá nome à loja: os Bordados da Madeira.

 

A origem do bordado madeirense remonta à antiguidade e à necessidade de decorar os espaços. A arte do bordado foi durante muito tempo uma atividade a que se destinaram as mulheres das classes mais abastadas e também as religiosas e o grande impulso surgiu nos anos 1950.

Mesmo esta tradição artesanal participou da Grande Exposição das Obras da Indústria de todas as Nações em Londres em 1851, obtendo enorme sucesso.

É um bordado sobre linho que, pela sua delicadeza e tradição, sempre foi um produto de luxo que se encontrava nas casas aristocráticas. E hoje é considerado o melhor bordado do mundo.

A família da Ana sempre se dedicou aos “bordados da Madeira”, primeiro na venda deste produto em Lisboa e logo, com o successo das lojas, abriu também uma fábrica na Madeira depois, que com o tempo fechou pois seguir a produção à distância se tornava complicado.

Ainda hoje são produtos caros e objectos de grande valor, que têm como compradores principalmente turistas, que sempre fizeram parte dos seus clientes habituais, desde os tempos da primeira loja do Estoril. Mas Ana conta que muitas famílias portuguesas também compram linho bordado para enriquecer o património familiar ou, por exemplo, uma toalha de mesa para usar em ocasiões especiais. São objectos que passam de mãe para filha e que muitas vezes permanecem na família por várias gerações, acabando por se tornar guardiães de memórias e histórias, momentos especiais a recordar, festas familiares a não esquecer.

E numa época em que se fala tanto de sustentabilidade, os produtos artesanais desta qualidade são certamente um suporte importante.

E a memória transmitida através dos objetos comprados faz com que Ana e sua família de alguma forma acabem fazendo parte dessa memória também.

A Ana mostra-nos um caderno onde clientes habituais, estrangeiros e portugueses, clientes que várias vezes regressaram à loja, deixam uma memória, uma história, um agradecimento por algo que, comprado na Madeira Shop, passa então a fazer parte da história de família. Ana conta que neste período pandémico tem recebido ligações e recados de clientes preocupados com ela e com os pais, sinceras expressões de afeto.

A Ana começou a trabalhar com a família em 2003, mas desde 2008 tem vindo a trabalhar na loja da família de forma mais ativa e com a ajuda ativa do seu marido João.

Os pais de Ana, Joaquim e Maria Antónia Abreu, têm agora 86 e 84 anos, mas não foi a idade que os afastou do trabalho, mas sim a pandemia. Mas Ana nos conta que de vez em quando não resistem e voltam à loja e, quando não conseguem, exigem de Ana um relato completo de tudo o que aconteceu durante a jornada de trabalho no final do dia.

Até 2019 nunca faltou a sua presença na loja, enquanto a Ana e o João os apoiavam na loja e, ao mesmo tempo, cuidavam de viajar pelo país em busca de peças de artesanato únicas.

Uma olhada na loja imediatamente nos faz entender que não se trata de uma loja comum, nem mesmo de objetos comuns. Ana conhece a história de cada objeto, ouvi-la é como uma viagem pela história das tradições portuguesas, ela sabe mostrar-nos cada escola ou artista que está por trás de cada objeto. Porque os escolheu um por um, conheceu os artesãos, os viu trabalhar.

E os objetos mais frágeis, Ana e João os carregavam pessoalmente.

Porque este trabalho é também uma forma de preservar e transmitir a tradição familiar e o amor que os seus pais sempre tiveram por este trabalho.

     

Ana guia-nos entre os objectos de cerâmica de Coimbra inspirados em obras dos séculos XV e XVIII, o clássico barro pintado à mão, o Galo de Barcelos, símbolo da fé e da justiça e boa sorte e hoje também um dos símbolos do país, o “Figurado” representado por artistas mais modernos e refinados e outros mais antigos que ainda transmitem uma arte milenar de representações sagradas e da vida quotidiana no campo. É inevitável a tradição romântica dos lenços dos namorados, que antigamente as mulheres bordavam à mão para o homem amado e que o homem tinha que usar no domingo na missa para mostrar que correspondia aos sentimentos da mulher em questão.

     

E não faltam os azulejos tradicionais, os móveis pintados do Alentejo, e tantos outros objetos, extraordinárias obras de artesanato.

Aos bordados da Madeira juntam-se aos de Viana do Castelo, igualmente bonitos mas menos caros, para lhe permitir chegar também a outros clientes.

E não faltam roupas tradicionais da Madeira e de Viana, que muitas vezes são compradas por turistas mas também por emigrantes portugueses que levam consigo um pedaço do seu país. Para as crianças também são comprados como vestidos de carnaval, enquanto as famílias do norte ainda os usam em festas tradicionais, como a dedicada a Nossa Senhora da Agonia (20 de agosto, nota do editor) ou em alguns eventos especiais.

Em suma, um lugar onde em cada prateleira, há um novo mundo a descobrir.

A loja da Ana, reconhecida pela cidade de Lisboa como uma “loja com historia”, na verdade não está muito protegida pela própria cidade.

Os tempos mudam, a cidade de Lisboa evolui, moderniza-se, e ao longo dos anos as marcas internacionais têm vindo a substituir cada vez mais o antigo pequeno comércio local.

Mas basicamente são estas lojas que contribuem para fazer de Lisboa uma cidade especial e diferente das outras.

Juntamente com o aumento do turismo que, diz Ana, é obviamente bem-vindo, seria desejável poder proteger de alguma forma estes antigos comércios da cidade para que não desapareçam.

Afinal, já não se trata apenas de um local comercial, mas de um espaço que dia a dia tenta preservar a memória de um passado que às vezes é difícil de reconhecer, a memória dum lugar e, neste caso, de uma família realmente especial.

By : Outubro 22nd, 2021 #umdiadecadavez 0 Comments

Na zona dos Anjos, em Lisboa, subindo a rua Triângulo Vermelho encontramos uma galeria de arte, ou melhor, uma plataforma de arte, que se dedica à promoção de artistas plásticos, mas que, acima de tudo, tem por missão ser um ponto de encontro e intercâmbio cultural e obviamente artístico.

Somos recebidos pelos dois idealizadores deste local e deste projecto, bem como a alma deste local: Vital Lordelo Neto e Julia da Costa.

Assim que entramos, o amor pela arte é palpável, não só pelas obras de diferentes artistas nas paredes ou nos catálogos, mas sobretudo pela atmosfera que Vital e Julia conseguiram criar, transmitindo a sua grande paixão pela arte e a sua vida como artista, neste projeto, que nasceu concretamente em 2019: Joia, “ourivesaria dos sentimentos”

 

 

 

O nome deriva do seu primeiro espaço, na Baixa de Lisboa, que instalaram numa joalharia e daí a ideia do nome Joia. Mas como diz o título do projeto, as joias que aqui se vendem são muito especiais: são as emoções que o artista transmite através das suas obras.

Mas vamos conhecer Vital e Julia mais de perto.

 

Vital é brasileiro, de Brasília. É por volta dos 20 anos, quando muda para o sul do país, para Portalegre, local de grande colonização e de muitas influências culturais, que começa a sua carreira de artista. Começa também uma formação  em publicidade e jornalismo, e quando chega em Portugal em 2016 já tem uma importante carreira artística. Quando chega a Lisboa, Vital trabalhava num projecto muito interessante sobre sentimentos e emoções, veiculados através da arte da ilustração, em cartazes. O apoio não é casual: o desejo de utilizar um meio que normalmente é usado na rua, reforça o seu desejo de comunicar com as pessoas e trazer a arte ao alcance de todos. E a vontade de falar de emoções e sentimentos é porque está cada vez mais difícil ser capaz de expressar o que se sente e menos ainda comunicá-lo aos outros. Vital nos conta que a pandemia certamente complicou ainda mais tudo isso e que a necessidade de comunicar com os outros é muito relevante e a rua certamente é o melhor lugar para deixar essa mensagem.

Quando Vital chega a Lisboa já tinha feito 18 cartazes dos 30 que hoje conta o projecto que já dura desde nove anos. E que ainda tem muito para contar.

Em 2019 a sua experiência como artista e o contacto com a cidade de Lisboa, que Vital define como um excelente local de encontro e intercâmbio entre culturas, levou-o à ideia de criar o Joia. Conhecendo as dificuldades de um artista que chega a um novo lugar ou que decide empreender o seu percurso artístico, a ideia é criar um ambiente que se destaque de uma galeria de arte habitual e que queira ser uma referência concreta no território, em que expor, mas também em que se orientar.

Em 2020, Júlia também chega ao Joia. Francesa de Vichy, chega a Portugal para aprender a língua em 2016. O seu percurso a conduziu por duas vias paralelas, a arte e a psicologia, que hoje se fundem nas suas obras. Júlia, chegada a Lisboa, dedica-se a um projecto de desenho, esboços da cidade, que entre as páginas de um caderno ganha vida numa união de palavras e imagens que dá origem a uma obra com a qual participa no importante evento artístico “Rendez-vous du carnet de voyage”. Ele vai recomeçar com outro trabalho no ano seguinte, após uma experiência em Nova York.

Mas os seus estudos de psicologia se fazem sentir e Julia começa a criar trabalhos centrados na análise das emoções.

E é em 2019 que os caminhos de Julia e Vital se cruzam. Primeiro como artistas, depois como companheiros de vida.

O projeto de Joia cresceu muito nos últimos anos: 50 artistas e 8 países diferentes estão representados aqui. Mas a grande inovação deste projeto é a ideia fundamental que o diferencia de uma galeria de arte normal. Joia é um espaço para crescer, como o próprio Vital me diz.

Quando o projeto começou não havia ideia de transportá-lo no plano virtual, mas também devido à pandemia as coisas mudaram e, com a ajuda da Júlia, hoje o Joia é um lugar físico, mas também um espaço virtual, além de contar também com um estúdio de tatuagem, uma agência de ilustração e uma revista online, Frestas nascida durante a pandemia, para garantir que daquelas frestas pelas quais passamos meses a olhar o mundo, hoje possamos olhar para a arte e as obras dos artistas representados.

 

Os artistas do projecto de Joia são todos artistas locais, de diferentes origens mas todos ligados à cidade lusitana em que vivem. Joia cuida de expor os seus trabalhos, mas acima de tudo cuida deles: para guiá-los, para aconselha-los.

Mas a mensagem de Joia é uma mensagem que vai ainda mais longe. A arte antes de tudo, como uma escolha de vita, como uma mensagem para todos.

O que hoje também é trabalho para Vital e Julia, na verdade acaba por ser uma verdadeira missão. A prioridade deles é a arte e viver da arte. E quem entra neste projeto como artista deve sentir o mesmo. Não há lugar para quem vê a arte apenas como passatempo ou como meio para ganhar dinheiro. Em primeiro lugar, a arte deve estar no centro da vida do artista, é o próprio artista que deve acreditar que se pode viver da arte e que  deve dedicar-se à arte. Somente quem partilha este pensamento e modo de vida pode valorizar plenamente este projeto e fazer parte dele.

Vital e Julia vivem isso como uma verdadeira missão e se dedicam a este corpo e alma. E não só à plataforma que criaram e à orientação dos artistas que dela fazem parte, mas também à divulgação da própria arte.

A ideia de criar este espaço físico é também permitir que todos possam usufruir da arte que oferecem. Quem entra neste espaço pode entrar para comprar, claro, e é sempre um bom investimento porque como nos dizem Vital e Julia “uma obra de arte nas nossas paredes é como uma nova janela” que nos permite olhar para um mundo diferente . Mas outros vêm apenas para olhar, e tudo bem, porque eles terão aproveitado de arte de qualquer maneira, mesmo que por um breve momento.

 

Espalhar a arte, alcançando o maior número de pessoas possível, pois para Vital e Julia a arte não é benefício de poucos, mas uma emoção ao alcance de todos.

A escolha do tipo de arte em exposição também vai com este motivo: durante muito tempo a ilustração foi considerada uma arte menor, e este projeto está empenhado em dar-lhe a importância que ela merece. Diferentes tipos de arte expostos, diferentes tipos de “suportes”: de cartazes a postais. Pois desta forma todos podem encontrar um trabalho que corresponda aos seus gostos e também às suas possibilidades. Julia e Vital estão empenhados em garantir que a arte não seja considerada um produto de elite, mas sim que todos aqueles que o desejam, possam ter uma obra em casa.

Até a escolha das molduras participa dessa ideia: simples, quase essencial. Porque o quadro não é a parte importante. Como diz Vital “o suporte é simples, a arte é nobre”.

A mensagem que Joia lança é precisamente a de dar à arte a devida importância e também de fazer compreender que a arte é um trabalho, não uma fantasia ou um passatempo. Quem faz da arte a sua vida investe trabalho, emoções, pensamentos, tempo e, muitas vezes, um artista não é considerado igual a outros trabalhos. Muitas vezes o próprio artista acaba para não se considerar igual a outras profissões. E Vital e Julia com o seu projeto também tentam fazer isso: ajudar a conhecer o seu trabalho e fazer o mundo entender o que está por trás de um objeto de arte.

E Vital e Julia também dão grande importância à documentação por trás disso, para que um artista seja considerado e reconhecido.

Um trabalho a tempo inteiro que vai muito além do horário de funcionamento da galeria / plataforma de arte.

Mas Vital e Julia não se dedicam apenas a curar o trabalho de outras pessoas, mas ao mesmo tempo continuam a sua jornada pessoal como artistas. Vital com um projeto denominado “Vitalis”, em que trabalha um coração criado com vários módulos que podem ser alterados em cores e posições, aos quais adiciona desenhos. Os detalhes. Para um trabalho sempre novo e original. Júlia, por sua vez, se dedica a um projeto que combina os seus dois caminhos, a arte e a psicologia, e depois de uma primeira história em banda desenhada dedicada ao alcoolismo, hoje destaca a dignidade da doença mental.

O que dizer: não se pode deixar de ficar fascinados por este lugar, por este projeto, por Julia e Vital que fizeram da sua paixão um trabalho e do seu trabalho uma missão.

Provavelmente devemos continuar a esperar antes que seja dada a devida importância à arte e aos artistas pelo seu trabalho, mas certamente Joia é um lugar onde quem quer viver a arte encontra uma referência, um lugar de crescimento, de inspiração. E para aqueles que só são apaixonados pela arte, raramente encontrarão um lugar melhor para respirar profundamente o fogo sagrado desta paixão.

Joia, a ourivesaria  das emoções: e emoções não faltarão se aceitar de deixar-se acompanhar por Julia e Vital neste turbilhão colorido feito de desenhos, cores, palavras e muito coração.

www.ajoia.art

By : Outubro 9th, 2021 #umdiadecadavez 0 Comments

Numa sociedade onde falamos cada vez mais sobre agricultura orgânica, respeito ao nosso planeta, sustentabilidade, hoje queremos falar dum projeto que fez dessas questões uma verdadeira missão. Este é o projeto de André Maciel.

Originário de Setúbal, André sempre demonstrou uma grande sensibilidade para com a natureza. Depois de estudar “Design do equipamento” em Setúbal, começa a dedicar-se à realização de projetos com materiais reciclados.

Neste projecto e nesta sua paixão a sua família estará sempre presente, em particular o seu irmão e o seu melhor amigo que o apoiarão de imediato nesta aventura.

E assim nasceu o seu primeiro projeto Purisimpl em 2013.

André acredita firmemente que é possível ser autossustentável, criar um pequeno ecossistema e produzir a nossa própria comida.

Por trás da ideia deste projeto existe uma história pessoal muito forte, o próprio nome a esconde. Purisimpl: puri da purifição, que não significa apenas purificação, mas que era também o nome da mãe de André que morreu prematuramente após um tumor quando André tinha apenas 13 anos. 

Ele lembra que no último período houve uma melhoria com o facto que a sua mãe tinha começado a seguir uma dieta orgânica e saudável. Para André foi um sinal; ele começou a pensar sobre como esta e outras doenças estão intimamente relacionadas à nutrição.

 

Os produtos orgânicos existem há muito tempo, mas costumam ser muito caros para a maioria da população. Portanto, a ideia de André é “Por que não ter certeza de que produzimos os alimentos de que precisamos?”

É precisamente para seguir a sua paixão que em 2015 André parte para Coimbra onde estuda Agricultura Orgânica e, após um período de pausa em que se dedica a outras coisas, retoma o seu projeto.

A ideia básica é poder criar alimentos orgânicos para todos e ao alcance de todos, contando com a participação de todos na produção dos nossos alimentos, utilizando a energia da terra, criando um verdadeiro pequeno ecossistema dentro da cidade. O que é chamado de Permacultura.


Hoje se fala muito em salvar o nosso planeta, respeitá-lo e buscar formas de cuidar dele. 

André começou muito jovem a perseguir esta ideia, a princípio até pouco levado a sério por aqueles que o consideravam um menino que corria atrás duma utopia.

Embora hoje este seja o seu trabalho, para André era e é uma verdadeira missão “educar” as pessoas para um tipo de vida e relação com a terra completamente diferente.

O André se define como ativista de alguma forma, e este projeto é um movimento real no qual acredita firmemente.

Para que isso funcione, para que esta nova forma de vida alcance o maior número de pessoas possível, é necessário antes de tudo que tudo seja simples (daí a segunda parte do nome Purisimpl) quase um retorno à simplicidade inicial. Temos que voltar a entender as coisas simples, colocar as mãos na terra, voltar a sentir esse vínculo com a própria terra.

Três pilares são aqueles nos quais este projeto se baseia: Acreditar, Agir, Evoluir.

E a vida de André e o crescimento do seu projeto se baseiam justamente nisso. Acreditar plenamente, mesmo quando ninguém acreditou, mesmo quando a sua ideia parecia uma utopia, uma vaga ilusão; agir e pôr em prática concretamente aquilo em que acredita mostrando aos outros, com o seu exemplo concreto, que tudo isso é possível; Evoluir, continuar a crescer neste caminho.

A vida de André cruza-se com a de Lisboa em 2017 e três anos depois, em 2020, nasce um novo projeto, uma nova semente da planta mãe que continua a ser o Purisimpl.

O André dedica-se aos jardins urbanos de Lisboa com o intuito de incentivar e motivar as pessoas a fazerem a sua própria horta em casa.

E assim nasceu o projeto Hortas LX. O André também criou uma página no Facebook e no Instagram com o objetivo de aconselhar as pessoas que estão começando a se aproximar desta nova realidade.

Um grande impulso a este projeto é dado justamente pelo período de crise em que vivemos. Esta época de pandemia despertou em muitas pessoas o desejo de retomar o nosso planeta, de fazer algo concreto e também de aprender a produzir por conta própria o que é mais necessário.

O lema do projeto Hortas LX é “cuidar do que vai cuidar de nós”, que é a nossa alimentação.

Mas o que mais chama a atenção neste projeto é o facto de que em torno da criação do jardim se cria uma verdadeira pequena sociedade, onde não necessariamente todos devem poder plantar o seu próprio jardim, porque talvez haja alguém que vai plantar para ele. O que realmente importa é que todos trabalhem juntos para um projeto comum. Uma ideia de ajuda mútua para dar origem a uma sociedade melhor.

Hoje Horta LX é um projeto importante, com serviços de consultoria, workshops.

Existe também uma escola, que depende da realização das suas aulas, no clube desportivo de Campolide, e que foi criada pelo Fundoambiente, a “Escola a compostar” que já conta com 500 inscrições e oferece cursos presenciais e online.

E são  criadas hortas também dentro das empresas e André se encarrega de criar e gerenciar as equipes que vão cuidar desses espaços. Começa por plantar a horta numa área comum da empresa e depois, uma reunião mensal para aprofundar cada vez um tema diferente e ao mesmo tempo ajudar na gestão do espaço, o que num ambiente onde normalmente existe uma rotina fria, torna-se um pequeno oásis para cuidar, onde trabalhar juntos, onde colaborar na realização dum projeto comum, uma forma alternativa de criar este trabalho em grupo, a equipe, que é tão importante nas empresas.

O André dá-nos as boas-vindas ao “Underground Village” onde hoje se encontra o seu escritório, em ambiente de co-working. Um lugar, mas também um desafio: num espaço de pedra e autocarros antigos, hoje contentores onde estão os escritórios, o desafio é transformá-lo num ambiente verde, através dos seus jardins.

O André é também grower da Noocity, criadores dos vasos inteligentes que rodeiam os autocarros onde o André realizou umas hortas onde tudo o que é produzido é aproveitado na cozinha do restaurante do village.

E os jardins são verdadeiramente extraordinários: plantas aromáticas, flores comestíveis, vegetais e frutas de vários tipos. Um mundo verdadeiramente incrível. E perante dois italianos como eu e Alex, o André não resiste e prepara-nos o bouquet mais perfumado que pode existir: o de manjericão.

A maior satisfação de André hoje é ter convencido aqueles que o acusavam de ser um sonhador, de ter mostrado que aquilo por que lutava pode tornar-se realidade e que se tornou uma realidade concreta. E mais ainda, ver muitas dessas pessoas hoje interessadas no que André faz com os seus projetos.

Afinal, este projeto é a imagem do André, que trabalhou dando o seu exemplo, mostrando que era possível fazer o que ele falava. E hoje existe um pouco dele em todos os projetos que criou.

Existem jardins urbanos no Porto, Setúbal e também em Lisboa. Novos jardins foram plantados em escolas, empresas e até em casas das pessoas.

Mas o que continua a dar ao André mais alegria e satisfação é quando se encontra com as suas plantas, com as mãos na terra e em contacto com a natureza.

O que o André procura fazer através dos seus vários projectos e do seu trabalho é antes de tudo passar a mensagem, uma mensagem concreta que diz que podemos realmente cuidar do nosso planeta e do nosso futuro, mas podemos fazê-lo de forma concreta, através de um regresso à simplicidade, para a terra, com as nossas mãos na terra. Para cuidar mesmo, como diz o André, do que vai cuidar de nós.

By : Setembro 27th, 2021 #umdiadecadavez 0 Comments

Em Lisboa, na praça que todos conhecem como Rossio, no coração da cidade, existe uma taberna, que guarda a memória de uma época que foi, quando esta praça estava repleta de cafés e tabernas, um dos pontos de encontro preferidos dos Português.

É a Tendinha, que desde 1840 continua a representar um dos marcos de Lisboa e além, para quem quer fazer uma pausa e comer algo enquanto bebe uma cerveja gelada ou um copo de vinho.

E quando dizemos Tendinha, dizemos Alfredo.

A sua imagem e a de Tendinha estão intimamente ligadas.

 

O Alfredo, alfacinha doc (uma forma simpática de dizer autêntico Lisboeta), está a trabalhar neste local há mais de vinte anos. Viu o tempo passar, os lugares e os gostos mudarem, muitos clientes, cada um com a sua história, e está presente neste lugar, que conhece com a palma da sua mão, desde 1998.

Tenho a certeza que quem já esteve em Lisboa já passou pela Tendinha pelo menos uma vez. E certamente se lembrará de Alfredo.

Muitas horas do seu dia são dedicadas ao trabalho e sem dúvida isso pode ser cansativo, mesmo que Alfredo sempre encontre uma forma de dar espaço aos seus interesses, como visitar novos lugares, assim como a fotografia e a dança, uma paixão descoberta há 20 anos atrás. A sua personalidade certamente versátil, e uma simpatia que o tornam um verdadeiro ponto de referência neste local. Alfredo conta que um escritor também mencionou a Tendinha num dos seus livros e, obviamente, não se esqueceu de mencioná-lo também.

E se querem conhecer a história da Tendinha, não há pessoa melhor.

Alfredo conta-nos que a Tendinha teve apenas três donos na sua longa história: a primeira família era de Viseu e permaneceu proprietária do local até 1974, passando este local de pai para filho, então o último herdeiro, que se dedicou a outras coisas, decidiu vender a taberna. E há 12 anos o atual proprietário comprou-a e tornou-se o terceiro proprietário oficial.

Mas a Tendinha, apesar do passar dos anos, não mudou muito. A única grande mudança ocorreu em 1974 e então permaneceu quase completamente a mesma.

 

Na sua aparência original possuía um piso superior onde se produzia a ginjinha (tradicional licor de ginja) que era posteriormente vendida no piso inferior onde existia e ainda existe a taberna.

A Tendinha nunca foi uma taberna onde as pessoas vinham só para beber, mas também sempre vendeu sandes e salgados (croquetes tradicionais à base de bacalhau ou de carne ou camarão, etc.).

Quando a Tendinha foi fundada era o 1840, embora recentemente um artigo de jornal relate a sua inauguração já em 1818. Lisboa era muito diferente do que parece hoje, os limites da cidade não ficavam longe do Rossio e, onde hoje se ergue a elegante Avenida da Liberdade, eram hortas.

 

As pessoas não comiam em casa, entre outras coisas em muitas casas não havia cozinha, pois o carvão nas casas de madeira teria sido a causa imediata do incêndio. Por muito tempo comer em tabernas ou nas chamadas “casas de pasto” era um hábito comum e isso explica também o baixo custo, nas tabernas antigas, ainda hoje. Comer fora não era um luxo, era uma necessidade. E no passado, conta Alfredo, as pessoas vinham aqui para aquecer ou cozinhar a comida e em troca compravam vinho.

Com o tempo, os gostos das pessoas também mudaram e certas “receitas” não existem mais. Alfredo conta-nos, por exemplo, que até há poucos anos a sandes com croquete de bacalhau e marmelada se comprava na Tendinha, ou se combinavam presunto com carne ou croquetes de bacalhau na mesma sandes. Hoje a oferta está mais moderna e mais adequada aos gostos atuais.

Mas a ementa não foi a única grande mudança do Tendinha. Há dez anos, numa taberna dirigida por um homem e frequentada por homens, chegou uma mulher: Margarida.

Parece-nos estranho pensar que há apenas dez anos uma mulher pudesse ter dificuldade em ser acolhida, mas a Tendinha sempre foi um local fora do tempo e sempre foi um local muito conservador, onde os clientes regulares iam para tomar um copo e, bebendo uma taça de vinho, conversaram com Alfredo, de homem para homem.

Quando a Margarida começou a trabalhar na taberna, conta-nos, às vezes lhe diziam que estavam à espera que Alfredo ficasse disponível para lhe pedir directamente.

Margarida teve que enfrentar muitas dificuldades para se integrar neste ambiente, mas não lhe falta caráter e por isso hoje não há Tendinha sem Alfredo, mas  também não sem Margarida.

Demora um pouco a começar a contar, mas quando o faz, abre uma caixa de memórias verdadeiramente irresistível. E aqui descobrimos que muitos clientes, testemunhando as brigas irresistíveis entre os dois, muitas vezes pensam que são casados ​​e Margarida nos confessa, que quando começou a trabalhar ali, para se defender de pretendentes indesejáveis ​​ou para afirmar a sua presença na taberna, ela e Alfredo fingiram mesmo estar casados.

Hoje eles realmente parecem um velho casal: eles se metem um com o outro, se provocam, brincam. E ao fazer isso, criam um ambiente de trabalho verdadeiramente único, feito de um trabalho enorme, mas também de muitas risadas.

 

Entre os episódios que nos conta, conta-nos também que no início da sua presença ali na taberna, muitos clientes, habituados a ter alguma conversa de “bar” e comentários não adequados à presença de uma senhora, por exemplo sobre o antigo animatógrafo do Rossio, agora dedicado aos peepshows, começaram  a inventar um código, a falar de aviões e boings para não ser compreendido por Margarida, ou assim pensavam. Às vezes, ela ia para a cozinha para deixá-los mais a vontade.

Mas também há memórias poéticas, como o signor César que escrevia poemas sobre os guardanapos que Margarida ainda guarda numa caixa. Uma vez, um grupo de poetas angolanos reuniu-se no interior da taberna e passou a noite a não consumir, mas a recitar poesia durante horas e horas, criando um momento que Margarida recorda como verdadeiramente mágico.

É claro que também tem alguém que já bebeu muito ou que vem beber depois de passar por muitos  bar e aí o Alfredo tem o seu jeito de evitar servir mais: “tem cartão de sócio? Não? E então eu não posso atendê-lo ”

La Tendinha é um local único no seu género e tudo garante que o ambiente antigo seja preservado: o local, o menu e até os copos que o novo proprietário guarda com zelo por fazerem parte da história deste local.

É óbvio que com o tempo a clientela do Tendinha mudou. Antes, chegava um turista por semana e agora são mais turistas do que locais. Antes iam a Tendinha porque era uma referência, hoje param porque no coração de Lisboa ainda é um restaurante barato.

Mas seja qual for o motivo, certamente ficará fascinado com o lugar e, acima de tudo, com a atmosfera que aqui respira-se.

A Tendinha é um lugar cheio de história.

Um dos poucos locais que se pode orgulhar de ter um fado que lhe foi dedicado (Velha Tendinha).

https://youtu.be/9s8GXFdISZE

E é precisamente o verso deste célebre fado que está agora bem marcado na entrada da taberna e nos aventais de quem aí trabalha: “Velha Taberna nesta Lisboa Moderna”.

Alfredo e Margarida continuam a tornar este local único, alegre, enfrentando o trabalho árduo com um sorriso e uma piada, que não pode deixar de envolver  os que estão presentes.

 

 

E ambos amam o contato com as pessoas e o facto de que trabalhar neste lugar permite que eles se conectem com pessoas e culturas diferentes todos os dias.

Quem passa pela Tendinha deixa uma dedicatória, um pensamento no caderno de Alfredo que agora traz mais de um caderno, testemunho da passagem daqueles que, ainda que por poucas horas, fizeram parte da história deste lugar.

Afinal, diz Margarida, o encanto deste local é só entrar sozinha e sair a conversar com alguém, porque tal como acontecia nas velhas tabernas do passado, entre uma sandes e um copo de vinho, começa-se a conversar com desconhecidos que, antes que o copo acabar, já não são mais desconhecidos.

E quando alguém tenta interferir nessa tradição perguntando “Tem net?”, eles respondem “Não, ha conversa” .

Porque a Tendinha não é apenas uma taberna, mas um local de encontros, histórias e muitas risadas.

By : Setembro 16th, 2021 #umdiadecadavez One Comment

No centro histórico de Alfama, na rua do Salvador 83, encontra-se uma pequena loja / atelier de um artista verdadeiramente único: Alberto. E a guarda da sua loja, bem embaixo da porta, está o seu gato Gordon.

 


Nascido em Angola em 1969, Alberto vive em Lisboa há mais de trinta anos. Viveu em diferentes bairros, mas nos últimos  15 anos Alfama tornou-se na sua casa.

Quando chegou a este bairro e a esta rua quase ninguém queria viver ali, fazia parte da Lisboa menos cuidada, mais abandonada. Mas Alberto mostrou imediatamente o seu espírito de luta, envolvendo também os demais moradores da região para participarem, cuidando da limpeza e dos próprios cuidados desta rua. Alguns anos depois, a área foi reavaliada. Mas Alberto teria feito mais uma pequena descoberta: uma placa antiga, escondida por cabos elétricos, que mais tarde viria a ser um sinal da antiguidade, o mais antigo da cidade.

E é precisamente aqui que Alberto nos acolhe no seu mundo, no seu atelier onde realiza e vende as suas obras. Quando entramos, somos imediatamente atingidos pela atmosfera vintage que reina na loja. Em todos os lugares, objetos decorados com revistas antigas nos trazem de volta ao passado: telas, pinturas, espelhos, objetos de todos os tipos. Mas acima de tudo malas: malas antigas, de todos os formatos e tamanhos, às quais Alberto deu uma nova vida.

E então eu me sento e o escuto enquanto me conta como tudo começou.

Era muito jovem quando a família o mandou para Portugal, e o Carmo e o Chiado vão ser a sua primeira casa. Alberto começa a trabalhar em diferentes áreas, mas o seu desejo era saber usar as habilidades manuais. O espírito artístico sempre fez parte dele, basicamente na sua família do lado paterno eram artistas, músicos, poetas. Alberto sempre teve arte no seus genes.

O seu grande sonho sempre foi um dia fazer dessa paixão pela arte manual o seu trabalho E poder viver da sua arte.

Há 16/17 anos, um grave acidente muda as coisas, ferindo gravemente os dedos de uma das mãos. Mas Alberto não desiste e começa a trabalhar na Feira da Ladra, a famosa feira da ladra de Lisboa. E é lá que ele se vê projetado num mundo de objetos antigos, e duas coisas chamam a sua atenção: as revistas de época e as malas velhas.

A mala: um objecto que hoje associamos a viagens e férias, mas que para Alberto é uma importante recordação da sua vida. Quando ainda era criança, no meio da guerra civil no seu país, ele teve que se mudar com frequência, fugir. E então a mala era a guardiã das coisas importantes, era a casa que carregavam com eles.

 

De um lugar a outro, com a vida dentro de uma mala.

E assim a mala para Alberto é a memória deste passado, um passado que ele não quer necessariamente contar, não porque queira esquecer, mas porque diz que não é daqueles artistas que sentem necessidade de render publico o seu próprio inferno pessoal para serem compreendidos e apreciados.

O que Alberto viveu na infância certamente não foi fácil, mas não é o que ele quer lembrar. O Alberto considera-se uma pessoa de sorte e está sempre com um sorriso que quer ver a vida, procurando as coisas bonitas que ela tem para nos oferecer.

E então este objeto ligado a uma memória do passado, a mala, transforma-se e ganha nova vida por meio das revistas de época.

 

Alberto começa assim a criar colagens de imagens vintage e com estas passa a decorar malas velhas e, no próprio local que o inspirou, a feira Ladra, começa a vendê-las.

Eram tempos diferentes, na época não havia muito espaço para autores, artistas. A sua ideia é original, mas inicialmente esbarra em muitos preconceitos, da própria ideia e de quem teve essa ideia.

Mas, como já vimos, Alberto não desiste facilmente e por isso continua no seu caminho e começa a ter algum sucesso, a princípio mais entre os estrangeiros do que entre os portugueses.

Um episódio o fará perceber que está no caminho certo: um dia, uma menina de 8/9 anos fica completamente fascinada por uma das malas de Alberto e começa a pedi-la. Se a mãe responde com indecisão, o pai decide agradar à filha, que reage com uma alegria e uma felicidade que Alberto mal consegue descrever. Ele se lembra daquele momento perfeitamente, da felicidade daquela menininha, como ela abraçou a sua pequena mala, como ela era grata aos seus pais. Alberto entendeu que se uma de suas obras poderia ter feito aquela criança tão feliz, então esse era exatamente o seu caminho.

E, lembrando-se disso, ele ainda fica comovido. E confessa que quando tem alguns momentos de desespero, ainda hoje, é justamente naquela menina que pensa.

O ponto de viragem veio quando a então proprietária da famosa loja A vida Portuguesa, que Alberto já conhecia, abre a sua primeira loja desta famosa marca e pede a Alberto que lhe possa vender as suas malas. Alberto também aceita porque Catarina imediatamente mostra grande confiança no seu trabalho, oferecendo-se para comprar as suas obras e depois vendê-las na sua loja. E aí, o grande ponto de viragem. As malas de Alberto começam a fazer enorme sucesso e o seu trabalho se torna cada vez mais conhecido. E Alberto entende que é precisamente isso, ser artista, o seu destino.

A vida do Alberto nem sempre foi simples, vários problemas de saúde dos últimos anos o colocaram à prova, mas ele é um verdadeiro guerreiro e sempre saiu disso. E é também por isso que o objetivo principal da sua arte é fazer sorrir.

Alberto deixa claro que não lhe interessa usar episódios tristes de sua história na sua arte. Isso não significa que ele não queira enviar uma mensagem. As imagens que escolhe para a realização das suas colagens nunca são casuais, mas visam lançar uma mensagem ligada à sociedade atual, ou representar aspectos da vida atual e das pessoas que nos rodeiam. Mas a mensagem é para alguns. Muitos param na beleza da decoração. E para Alberto está bem assim. Quer perceba a mensagem ou apenas aprecie a beleza do trabalho, o importante é que Alberto receba a mensagem positiva, observe e sorria, sinta-se alegre com o trabalho na suas mãos.

É isso que o Alberto quer. Ele se define um esteta, aprecia a beleza e busca a beleza, em todas as suas formas, em tudo e em todas as situações da sua vida. Para ele, é o mais importante. Ele diz que a vida é uma caixa cheia de surpresas. Isso me faz pensar em Tom Hanks no famoso papel de Forrest Gump quando ele diz que a vida é uma caixa de chocolates e nunca sabe o que acontece contigo.

Afinal, a filosofia de vida de Alberto é exatamente esta: abra a caixa e deixa-se surpreender.

Às vezes há momentos de dificuldade, até porque para ganhar o nosso lugar na sociedade acabamos pertencendo a um grupo, a uma categoria, e isso às vezes significa também aprender a ceder. Mas Alberto mostra paciência para situações mais complicadas e continua a enfatizar a sorte que sente por poder viver com o trabalho que adora e por que acabou conseguindo o emprego.

Alberto adora o contato com as pessoas e isso também vê-se nas idas e vindas das pessoas que passam por seu atelier, mesmo que apenas para um olà.


Hoje a sua casa é em Alfama, mas já percorreu quase toda a cidade de Lisboa e conhece-a bem. Como nos conta, foi de colina em colina, do Chiado, quando chegou, na Lisboa mais requintada e menos popular, a Alfama, o bairro mais popular de toda a Lisboa. Um bairro que Alberto lembra como muito animado, com muita gente na rua. E mesmo agora que Lisboa está a mudar, a modernizar-se, a ficar cada vez mais cosmopolita, com muita gente a passar, Alberto vê o lado positivo desta mudança que, segundo ele, está a dar nova vida à cidade.

Mas nesta Lisboa moderna e cosmopolita, o seu atelier continua a ser um local quase fora do tempo. Hoje, Alberto se dedica principalmente a painéis, pequenas pinturas. E quando ele não consegue se concentrar, ele sai, dá uma caminhada, fica em silêncio para contemplar e depois volta e começa a criar.

Hoje só podemos comprar as suas obras no seu atelier mas muitos, especialmente portugueses, pedem a Alberto que crie obras à medida.

Antes de sair, tenho uma última pergunta para Alberto: por que a rosa no peito?

Alberto me conta que há cerca de 15 anos lutava contra uma doença da qual não falava com ninguém. Os seus colegas da Feira da Ladra obviamente notaram a alteração física, mas ninguém se atreveu a perguntar. Um dia, um homem que não se dava nada com Alberto, o que menos bem o recebia, abordou-o e perguntou a Alberto como ele estava. E lhe deu uma flor para colocar no peito, como um símbolo de esperança, de vida, de confiança. E desde então Alberto sempre leva uma flor no peito, porque ainda hoje, que a doença está longe, esse gesto não deve ser esquecido.

Um gesto inesperado, uma mão estendida por quem não esperava, uma mensagem de esperança que Alberto quer continuar a recordar. Porque, como ele diz, a vida te surpreende quando menos esperas.

By : Setembro 6th, 2021 #umdiadecadavez 0 Comments

A história que hoje contamos é a de Will, um grande músico, uma pessoa extraordinária, que durante anos, “um dia de cada vez” entrou na minha vida e na de Alex.

O Alex ao regressar do trabalho e eu a passear pelas ruas de Lisboa com os meus turistas, ficamos muitas vezes surpreendidos e encantados com a música única do Will.

Willfredo, para ser mais precisos. “Mas para todos, eu sou Will”, ele diz-me assim que começamos a conversar.

 

Will é suíço, mas conhece Lisboa há cerca de 40 anos. Dois casamentos atrás dele, com duas portuguesas, dois filhos, uma rapariga de 26 anos e um rapaz de 28 anos, ambos no estrangeiro, e uma companheira de Dakar que foi repatriada há algum tempo, deixando-o aqui ”suspenso “como ele mesmo diz.

A vida de Will é uma vida extraordinária, difícil, mas corajosa. E hoje cabe a nós tentar falar dela.

Will é licenciado em antropologia, foi académico, tradutor, ensinou alemão, francês e inglês a futuros intérpretes no ISLA (Instituto de Línguas e Administração de Lisboa, ed) durante mais de 10 anos, mas Will é acima de tudo músico, um guitarrista clássico.

Will é Willfredo Mergner, ou Fredo Mergner como é mais conhecido. Guitarrista da famosa banda “Resistência” dos anos 90.

Para quem ainda não teve oportunidade de ouvi-lo, convido-o a fazê-lo, por exemplo no “A sombra da figueira”

Um guitarrista de sucesso, um artista sensível, um músico de grande valor, capaz de ir do Fado ao Jazz, à música clássica.

Mas hoje é o Will, que me cumprimenta dizendo “Não falo italiano, mas posso falar com isso” e começa a tocar “O sole mio”  deixando-me sem palavras. “É o sol de Lisboa. É fado ”, afirma.

Há confusão em torno dele, as pessoas conversam, riem, bebem. E escutam distraídas, sem entender a sorte que tem naquele momento.

Estamos no Largo do Carmo, em Lisboa. Está a anoitecer. No quiosque da praça estão muitas pessoas sentadas para tomar um drink.

E entre eles, sentado num banquinho improvisado, abraçando a sua guitarra, está ele: Will.

Will toca na rua há alguns anos. Antes, o encontrávamos muitas vezes no seu palco preferido, o miradouro do Largo das Portas do Sol, depois nas escadas da Calçada do Duque e agora no Largo do Carmo.

Will sempre teve o seu público, ele nos conta. As praças se tornaram as suas salas de concerto. E sempre havia quem parava para ouvi-lo.

E entretanto continuou a compor música: fado, jazz, sonatas.

Não importa por que Will começou a tocar na rua, essa não é a parte da história que queremos contar.

Mas o seu amor, aquele pela sua guitarra.

Pergunto quando ele começou a tocar e explica que para tocar a guitarra é preciso ser mais adulto, para a evolução das mãos, por volta dos 14 anos. Mas ele praticamente sempre tocou. A música o acompanhou-o por toda a sua vida

E quando pergunto-lhe se toca outros instrumentos, ele diz “Não! Ninguém que ama um instrumento de todo o coração pode tocar outro com a mesma intensidade ”.

Porque para Will é assim. A guitarra é sua mulher, o seu amor, a sua companheira de vida.

 

É só nela que as mãos podem deslizar, é só do peito dela que a harmonia certa pode sair para contar a sua alma.

Tocar outro instrumento seria como traí-la. E Will não pode, porque a ama demais.

E nós vemos esse amor, nós o sentimos. Will nunca deixa a sua guitarra, ele a segura no seus braços, como um amante a mulher que ama.

E quando a abraça, o seu olhar se perde.

A guitarra que o Will toca hoje não é a que ele usava nos shows anos atrás, que foi roubada. Esta foi oferta-lhe há algum tempo. Mas Will a ama da mesma maneira.

Não pode prescindir disso, porque tocar é a sua vida, a sua forma de se expressar. É através da música que Will fala sobre si proprio.

Melhor do que não consiga fazer com palavras. Porque na música está a sua alma.

A pandemia certamente tornou a sua vida mais complicada e acrescentou outras dificuldades. E hoje, mais do que ontem, a musica o ajuda a sobreviver.

Mas Will é forçado a fazê-lo num lugar mais lotado, porque a pandemia certamente limitou o público usual que sempre o acompanhou.

E isso simplesmente não combina com ele.

Ele diz que se sente cansado, porque tocar assim não lhe permite de se entregar à música. Ele poderia estar a tocar algo moderno e barulhento  ganhando um pouco mais com menos esforço, me diz. Mas ele não quer.

A música de qualidade em primeiro lugar. A boa música deve ser respeitada. E é música de qualidade que Will quer tocar.

Will quer se abandonar à música, deixar a sua alma se expressar entre as notas vibrantes que saem da sua guitarra. “E isso cansa, desgasta”, diz ele. Porque assim se dá sem filtros, sem limites, sem descontos. Se entrega e o faz completamente. E tocar assim é para poucos. E para poucos é também ouvir em silêncio respeitoso. 

E é esse silêncio que falta entre o barulho dos copos e o riso das pessoas distraídas. E isso para Will é a maior dor. Mais do que todas as dificuldades que a vida colocou e ainda coloca diante dele, ele sofre com o barulho, pelo facto de não poder tocar em silêncio, de não poder dar-se completamente como gostaria.

Mas Will não desiste, já está pensando em novos projetos. Ele já tem uma ópera pronta, um concerto de guitarra no qual está trabalhar  há algum tempo e que espera ver publicado.

Will trabalha nisso com um colega e a pandemia suspendeu os seus encontros. Mas está pronto para recomeçar, porque ainda tem muito a nos contar.

E as dificuldades não extinguiram em nada a chama de sua criatividade.

Afastamo-nos um pouco da confusão. Vamos sentar na escada da igreja do Carmo. E então Will toca para nós, só para nós, no silêncio como ele gosta.

Num momento os seus olhos se fecham, as suas mãos começam a deslizar na guitarra, e a música da “Canção do mar” começa a se espalhar nesta noite quente de verão.

Will toca abraçado a guitarra, aperta-a com força enquanto os acordes se sucedem rapidamente. Os seus olhos estão fechados, a sua mente está num outro lugar, está com a sua música, entre aquelas notas que têm uma vida inteira para contar. 

By : Agosto 26th, 2021 #umdiadecadavez 0 Comments

No bairro da Mouraria, um dos bairros mais autênticos mas também o mais multicultural de Lisboa, mesmo ao pé da igreja de São Cristóvão, a antiga Santa Maria de Alcami moçarabe, encontramos uma loja que faz do Vintage uma forma de vida.

 

 

Este é o Tropical Bairro de Paolo.

Italiano, de Monza, nascido em 1979, em Lisboa desde 2016. A história de Paolo com Lisboa é a de muitos estrangeiros que acabaram por ser adoptados pela cidade lusitana. Chegando aqui de férias, Paolo fica impressionado com a cidade, com a sua luz extraordinária, e começa a pensar que talvez Lisboa possa ser o início dum novo projeto.

O mundo vintage faz parte da vida de Paolo há muitos anos. E, para ser honesta, com a sua história ele abre-me um mundo. Explica-me que na realidade existe o que se define como uma sub-cultura ligada ao mundo vintage, com encontros, festas temáticas, complementadas com dress code, e todo um mundo ligado ao colecionismo, música, objetos. Um mundo verdadeiramente à descobrir. E Paulo está lá para nos projetar neste universo.

Antes de chegar a Lisboa, viveu em Milão e dedicou-se principalmente às vendas online e em algumas feiras. Mas a sua ideia há algum tempo era criar um lugar, no qual unir vários aspectos desta cultura. 

Chegaram as férias em Lisboa e muitas avaliações: o local, o custo de vida, a burocracia a seguir para abrir uma loja ali e então começa a pensar seriamente nisso. E no final, o grande passo. Ele chega aqui e abre uma primeira loja, em parceria, e entretanto começa a integrar-se na comunidade italiana.

Entre as primeiras pessoas que encontra está o escritor Daniele Coltrinari (autor de Lisbona é un’assurda speranza, nota do editor) e depois a comunidade de italianos em Lisboa. E assim, um dia de cada vez, Paolo assume o seu lugar na sua nova cidade. E ele vem viver para a Mouraria. E a Mouraria será o segundo grande ponto de viragem. 

Um dia, a dona desta loja, que vendia jóias, cerâmicas e artesanato local, se aproxima de Paolo e lhe conta que ouviu falar da sua busca por uma loja própria e propõe alugar esta loja para ele. E Paolo aceita. E assim nasce o Tropical Bairro.

Mas a vida de Paulo é muito mais completa e complexa do que isso. 

E então Alex e eu o seguimos, para tentar entender todas as várias facetas do seu dia “típico”.

11h00:a porta da loja se abre e é hora de começar.


Paolo prepara a loja e põe uma boa música. Sim, a música, que nunca pode faltar. Porque o Tropical Bairro não é uma loja normal, mas sim uma expressão do amor de Paolo pela cultura vintage.

Na loja encontramos roupas, vintage, claro, e discos de coleção. Dois produtos diferentes, mas complementares, duas expressões da mesma cultura.

Paolo arruma as roupas nas arquibancadas com cuidado e grande precisão, e depois, atrás do balcão, se dedica à música.

 

 

 

É uma paixão que carrega consigo desde criança. E o Paolo é também DJ.

Mas não vamos correr muito rápido, vamos em ordem. Tínhamos chegado à loja.

Tem dias mais caóticos, outros mais calmos, alguns clientes entram para dar uma olhada, alguém compra. Outros param para uma conversa. E Paolo continua a contar a sua história, enquanto limpa os seus amados vinis e toca algumas músicas.

 

A atmosfera aqui é obviamente diferente de uma loja clássica. A música ambiente, a atmosfera descontraída, tornam este lugar um ambiente extremamente agradável, onde as pessoas entram e se sentem à vontade.

E continuo conversando com o Paolo, que me conta sobre o seu passado como cenógrafo e as suas colaborações também com a TV italiana, trabalho que o acompanhou dos 19 aos 27 anos mais ou menos.

E depois a paixão pela música que nunca faltou.

O que mais chama a atenção no estar com Paolo na sua loja são as idas e vindas não só dos clientes, mas também das pessoas do bairro.

Aproveito então para perguntar-lhe como é estar, como estrangeiro, num bairro tão popular. Mas Paolo diz-me imediatamente que nunca sentiu-se estrangeiro na Mouraria. O importante, ele me explica, era manter um perfil discreto, não se impor, mas respeitar o lugar em que estás. Saber se integrar com as pessoas que já estavam lá. E hoje o Paolo integrou-se muito bem nesse espírito típico da Mouraria, que o acolhe na sua “família” criando um vínculo entre “vizinhos” e não entre lojas concorrentes.

 

“E como administras a loja, as compras, em particular de discos?” Pergunto-lhe. E o Paolo me explica que essa é a parte mais complicada porque, se a tecnologia vem em auxílio para as roupas, com pesquisas online e fornecedores, para os vinis é mais complicado. 

A maioria vem de coleções particulares e a compra costuma ser o resultado de um trabalho mais elaborado. Paolo deve marcar hora, visitar a coleção, avaliar e depois tratar do aspecto da compra. E às vezes também significa fazer viagens longas o suficiente para entrar em contato com os colecionadores.

Ser capaz de gerir tudo sozinho, portanto, pode ser muito complicado às vezes.

Mas a jornada de trabalho está quase a acabar, pelo menos no que diz respeito à loja. E Paolo se prepara para fechar.


Mas aproveito uma última pergunta: “Por que Tropical Bairro?” Paolo me explica que o nome vem da ligação com a música, os ritmos dos trópicos que fazem parte de sua cultura e de sua paixão musical. E ele também queria usá-los  no nome da sua loja. Ao mesmo tempo, era necessária uma ligação com Lisboa e o seu Bairro. E brincando um pouco com o português e o inglês no título, saiu “Tropical Bairro”

19h: É realmente hora de fechar. O sol ficou menos intenso, uma criança paquistanesa joga futebol, alguém bebe uma cerveja na escadaria do São Cristóvão e as portas do Tropical Bairro se fecham.

Mas a nossa história não acabou!

Como já disse, há uma paixão que sempre acompanhou o Paolo desde a adolescência, que é a música. E ele sempre dedicou-se a actividade de DJ.

Pergunto como nasceu essa paixão e ele me explica que tudo começou com filmes e trilhas sonoras. Quando gostava de uma música cinematográfica, ele ia em busca da trilha sonora do filme e daí para a música, depois o artista e a sua música. Uma verdadeira pesquisa.

E é assim que Paolo descobre a música Reggae, a americana dos anos 1950, e começa a descobrir as influências entre a música jamaicana e a de Nova Orleans. E depois a música  latina, brasileira e sobretudo  africana, em particular a cabo-verdiana e angolana.

E foi precisamente a música que soldou o encontro do Paolo com o nosso Alex, que conhece bem a cultura e a música cabo-verdiana, que trabalhou em Angola. E é a partir daí, da paixão comum por esta música, que um encontro casual, “um dia de cada vez”, se transforma em amizade.

E quando as portas da loja são fechadas, a cortina sobe para mostrar o Paolo DJ, na sua capacidade de misturar sons de vários países.

Afinal, confessa-me, uma das coisas que o fascinava em Lisboa era a cultura musical que vinha das ex-colónias portuguesas.

22h: é hora de começar. Os vinis estão prontos, Paolo prepara a sua seleção.

E lá está ele, com o seu fone de ouvido original em forma de telefone , em perfeito estilo vintage, é claro, para deslizar os vinis. E sua música se espalha.

 

“O que sentes quando tocas? Te perdes um pouco no teu mundo e na tua música? ” pergunto. E Paolo me explica que é justamente o que ele tenta não fazer, se isolar na sua música. Para ele é importante partilhar, ser capaz de transmitir essas mesmas emoções a quem o escuta, observar quem está à sua volta para ver também a sua reacção à música daquele momento.

“Nem sempre é fácil”, explica ele. “É preciso saber se adaptar ao lugar e à ocasião em que te encontras”.

Em algumas ocasiões a música de Paolo toca num lounge bar, outras vezes anima festas e noites em que o “imperdível” é dançar.

E é no seu papel de DJ que Paolo provavelmente se sente mais à vontade.

O que é certo, quer ao entrar no Tropical Bairro, quer o Tropical Bairro chega até ti através da sua música, não podes deixar de te deixar levar por este mundo fascinante sobre o qual Paolo ainda tem muito para contar.

By : Agosto 16th, 2021 #umdiadecadavez 0 Comments

Diz um fado muito famoso: “Uma casa Portuguesa com certeza” e ao entrar em Zé dos Cornos poderá pensar que esta frase foi escrita para eles.

Vamos colocar uma família, juntamos pratos tradicionais portugueses, um belo punhado de alegria, uma pitada de ironia, temperamos com a típica recepção da bela região do Minho, e aqui está o Zé dos Cornos, um local de tradição há quatro gerações.

Para tentar reconstruir a longa história desta família e do lugar, pedimos ajuda a Marco. João Marco Ferreira para ser mais preciso. Mas para não o confundir com o pai, João Ferreira, para todos é o Marco, o mais novo desta família.

Marco, através de memórias também ligadas a conversas com a avó, ajuda-nos a reconstituir a história da família Ferreira e de Zé dos cornos. Mas o seu pai João não resiste, e de vez em quando sai do balcão para se juntar à história de Marco e também contar alguns dos seus pormenores e memórias, dando origem a um extraordinário dueto pai-filho que nos introduz de imediato no ambiente deste. lugar, um lugar onde podem respirar um ar familiar.

Mas vamos tentar ir por ordem e, dando um passo atrás no tempo, vamos tentar reconstruir esta história.

 

Originalmente este local não era um restaurante, mas sim uma carvoaria, um lugar que vendia carvão, óleo e tudo o que pudesse servir para iluminar e aquecer as casas. Na época, não havia eletricidade na cidade. Era um trabalho que normalmente faziam em Lisboa os galegos, que, dada a proximidade geográfica, muitas vezes trabalhavam em Portugal. E este lugar pertencia à Célia Cabo, e era gerido por duas irmãs galegas.

Domingos João Ferreira, avô de João e bisavô de Marco, natural de Ponte de Lima, na bela região do Minho, após o serviço militar decide comprar esta propriedade e assim continuar com a tradição do carvão.

A loja atendia toda a zona da Mouraria e não só.

Como numa saga familiar perfeita, a loja da família passa para o filho José, para todos o Zé, que aqui chega aos 13 anos e que, mais tarde, passa a geri-la junto com a sua mulher Maria.

 

E aqui está a primeira evolução do local: junto com o carvoeiro, Maria começa a preparar alguns pratos num pequeno espaço ao lado dele. Coisas simples, como as que podem ser encontradas neste tipo de local. A família viveu e trabalhou aqui.

A cozinha, explica-me o Marco, ficava onde hoje existe uma pequena casa de banho e, onde actualmente está a cozinha, havia uma divisão com uma grande mesa e, por trás desta divisão, a casa da família com um pequeno pátio. Uma típica casa portuguesa.

E aqui o João intervém para nos dizer que desde criança praticamente teve que passar pela entrada da loja e depois entrar em casa.

A Carvoaria do Zé transforma-se, graças aos pratos de Maria, na Casa de pasto do Zé Ferreira. Mas as pessoas vão ligando o Zé ao seu trabalho de carvoeiro, e é aí que para todos passa a ser Zé Carvoeiro.

 

Mas como foi que chegamos ao nome de Zé dos cornos então? Pergunto a Marco.

E explica-me que na realidade tudo começa no dia em que o Zé, cujo retrato domina a entrada do restaurante, chega a casa com um par de cornos, os que penduram nas paredes como troféu de caça e que ainda hoje dominam na cabeça de seu retrato. A partir daí, as pessoas começaram a chamá-lo de Zé dos cornos. O Marco mostra-nos também um autocolante, um dos primeiros feitos para o restaurante, onde de facto vemos o Zé com estes cornos.

 


E então brinco com o Marco, porque eu conhecia uma versão diferente, ou seja, que esse apelido veio da fama de mulherengo que acompanhava o seu avô. E Marco e João caem  na gargalhada. E me dizem que o nome não vem daí, mas que isso não é exatamente uma lenda urbana porque o Sr. Zé era mesmo um mulherengo.

João me conta que quando havia uma mulher no restaurante, ela não se livrava da companhia do pai com tanta facilidade. E ele diz que sempre foi assim, até o fim. 

Infelizmente, o Sr. Zé não pode estar aqui para negar, pois nos deixou em 2013 após uma doença fulminante do fígado.

E hoje a gerir o restaurante, há João e a sua mulher Carmelinda, para todos Minda. Outra geração, a terceira, outra história.

   

Nesse ínterim, o local não mudou muito, até porque o Sr. Zé, conta João, não gostava de grandes mudanças, era muito conservador, e convencê-lo a modernizar o local não foi fácil. Por exemplo, o balcão de aço do restaurante existe há pelo menos 40 anos e já foi há 32 anos que esta taberna assumiu o seu aspecto atual, exceto por algumas pequenas reformas.

A grande inovação deste local foram as grandes brasas que lhe foram ofertas e que permitem à taberna de preparar as suas especialidades: pratos grelhados, carnes e peixes cozidos na grelha. Uma verdadeira delicia!

Há outros membros da família na cozinha, principalmente a irmã de Minda, Maria. E foi graças à Maria, ainda que indiretamente, que Minda e João se conheceram.

E então o Marco explica-nos que a sua mãe Minda trabalhava em Braga e tinha chegado a Lisboa para ajudar a sua irmã Maria após o parto.

Maria morava não muito longe do restaurante e Minda então passava em frente à porta da taverna. E quando o João viu a Minda … “Ele nunca mais desistiu de mim!” Minda intervém. “Claro que não estava à espera dele, tinha outro namorado em Braga!” continua, no meio do riso geral.

Minda é assim, a alma deste lugar, uma mulher de grande espírito e simpatia.

E assim no fim a Minda e o João casaram-se há 28 anos. E agora eles moram juntos, trabalham juntos … “Não aguento mais”, diz ela rindo. Mas o vínculo deles é realmente unico.

Maria também conta a dela, acrescentando que ficar sempre junto com a família nem sempre é fácil, às vezes no trabalho pode haver pequenas tensões, mas o carinho sempre vence tudo e esquece e sempre resolve tudo muito rápido.

E já há alguns anos Marco, filho de Minda e João, a quarta geração desta família extraordinária, também trabalha na taberna.

Marco diz que começou a trabalhar numa outra área, mas que depois do curso decidiu finalmente se juntar à família.

Como ele nos conta, é um trabalho árduo, principalmente por causa dos horários, mas é o seu lugar, da sua família e o que eles fazem de melhor.

 


Esta taberna mantém intacto o espírito das típicas “tascas” portuguesas, com grandes mesas e banquetas de madeira. E a tradição deste lugar sempre foi combinar completos desconhecidos na mesma mesa, uma forma verdadeiramente impecável de se encontrar almoçando com os amigos e fazer novas amizades.

Marco conta que quando chegavam, por exemplo, pessoas da mesma nacionalidade, ele os juntava na mesma mesa para que se sentissem mais à vontade. E, dessa forma, ele também acendeu a faísca entre algumas pessoas. Conta-nos, por exemplo, que há anos tinha sentado à mesma mesa um italiano e uma brasileira que acabaram por conversar muito e que continuaram a conhecer-se  muito depois daquele almoço no Zé dos cornos. Acabaram para casar-se e até queriam organizar o jantar de casamento lá na taberna, onde nasceu o amor.

Há muitas histórias para contar, conta-nos Marco. Zé dos cornos continua a ser um local autêntico apesar da grande publicidade que tem recebido ao longo dos anos e que tem atraído muitos turistas. Publicidade não procurada, conta Marco, mas que aconteceu, com clientes antigos que recomendavam o lugar a outros, jornalistas que apareciam na porta do restaurante, até falaram deles na TV holandesa. E muitas pessoas famosas já passaram por ai e ainda passam. “Mas para nós, famosos ou não, não faz diferença”, diz Marco, porque quem chega é bem-vindo da mesma forma.

Definitivamente um local fora do comum, onde turistas e clientes habituais se encontram há muitos anos, onde a hospitalidade reina e onde ainda pode desfrutar de uma chávena de vinho verde tinto. Uma especialidade minhota muito rara de encontrar fora daquela região, porque é produzida apenas para clientes locais. Mas como boa família minhota, os Ferreira do Zé dos cornos o têm.

Mais um motivo para visitar este local e mergulhar num ambiente familiar, divertido e descontraído enquanto saboreia um prato de carne ou bacalhau grelhado, a beber um copo de vinho, “verde tinto” obviamente.

Zé dos cornos está localizado no Beco dos Surradores 5.