Christian: entre uma ópera romântica e um “Quotidiano” especial

By : Novembro 16th, 2021 #umdiadecadavez 0 Comments

Hoje é um dia chuvoso em Lisboa, um pouco cinzento, de outono. Mas o nosso dia, o meu e o de Alex, está prestes a ser alegrado por um feliz encontro.

Christian, um antigo amigo de Alex, vem ao nosso encontro com o seu animado cachorro Chopin. E sim, Chopin, como o famoso compositor. Claro, um amante da música como ele não poderia ter escolhido nome melhor.

Christian, Christian Lújan, é na verdade um barítono com uma bela voz. Mas ele também é um artista com mil talentos. Pronto para descobri-los juntos?

Christian, de origem colombiana, chega a Lisboa por acaso.

Aconteceu há 15 anos, quando aos 21 anos segue a mãe, que, após o divórcio, decide vir para Lisboa. A sua chegada não será das mais fáceis porque, como nos diz Christian, chegam sem visto e vão ficar 6 dias no aeroporto de Lisboa à espera de saber se podem entrar ou não no país.

Quatro meses depois, Christian entra no Conservatório Nacional, onde começa a estudar canto lírico. Também começa a frequentar a Faculdade de Musicologia do FSCH, mas sem concluir o curso.

A música era agora o seu caminho e Christian nunca vai parar de segui-la.

“Mas como começou?”, Pergunto- lhe. De novo por acaso.

Christian é originário de Medellín, região central da Colômbia, não exatamente um país onde a cultura da ópera pode ser considerada particularmente enraizada. Ele cresce com duas formações diferentes: sua mãe é adventista (Igreja Adventista do Sétimo Dia, ndr), mas Christian frequenta a escola salesiana da sua cidade, é vegetariano em casa, come carne na escola, em casa o sábado é respeitado como dia de descanso, mas ao mesmo tempo passa a fazer parte do coro salesiano.

Nesse ínterim, ele também começa a tocar. Costumava-se introduzir as crianças à música com pequenos cursos e Christian descobre o contrabaixo que será seu primeiro instrumento.

E assim começa a sua ligação com a música: entre o contrabaixo e os salmos cantados com o coro durante a missa. Até que um dia alguém o ouve cantar. Antonio, professor da faculdade de medicina, mas apaixonado por música e regente de coro. Ele ouve algo diferente, especial na voz de Christian e sugere que ele comece a tratar deste seu dom. E assim Christian começou a estudar no Instituto de Belas Artes de Medellín e se abriu para o mundo da ópera.

Quando a mãe decide partir para Lisboa, para Christian é a oportunidade de chegar à Europa, ao continente onde a ópera e a cultura do canto lírico estão enraizadas há séculos.

E foi assim que começou, e foi em Lisboa e no seu conservatório que ele se dedicou a este novo mundo.

Christian ainda se lembra do seu primeiro trabalho e do seu primeiro papel, o de Pinnellino, o sapateiro de Gianni Schicchi de Giacomo Puccini, no San Carlo em Lisboa. Ele tinha 23 anos. Lhe pergunto o quão animado estava. Christian responde: “Animado? Não. Aterrorizado ”. Esta é a sua memória das duas primeiras apresentações. Mas, no fundo, ele me diz, é sempre assim. As primeiras apresentações são as do tremor, ansiedade, depois entras em cena, uma noite após a outra, e aos poucos começas a curtir o show e a emoção da música e da ópera.

 

Lisboa não será o seu único destino. Ele se mudará para a Bélgica por três anos e meio, onde se aperfeiçoará no Flanders Opera Studio.

E é na Bélgica que acontecerá a grande virada na sua vida amorosa. Vai voltar a encontrar uma colega, Mariana, de Lisboa, também cantora de ópera, cujo caminho já havia cruzado, mas sem acender a centelha. Duas pessoas diferentes na época, ela animada, ele numa fase que ele define como “boêmia”, não se conheciam. Mas o destino deu-lhes uma nova chance, na Bélgica, onde acabaram dividindo um apartamento e se apaixonaram. A história de amor deles já dura a dez anos e há alguns meses foi coroada pelo nascimento da terna Camila.

Christian já desempenhou tantos papéis, mas quando lhe pergunto quais são os que mais se identificou ou amou, ele não tem dúvidas: Scarpia (o “vilã” de Tosca) ou Marcello (o pintor de La Bohème), e os trágicos papéis da ópera romântica, especialmente a de Giacomo Puccini.

Hoje Christian vive da música, mas não pode deixar de se lembrar dos tempos em que se dedicou a muitos trabalhos diferentes e, entretanto, passou de uma audição para outra. Certamente uma situação cansativa no início, mas que nunca fez com que Christian desistisse, hoje ele fez conhecer o seu nome e sua voz especial no mundo da ópera e finalmente pode  viver do que sempre sonhou.

Mas a gama de nuances artísticas de Christian não pára na música e no canto lírico, e enquanto ele nos conta que começou a estudar para aprender técnicas de massagem chinesas, também fala sobre um projeto de fotografia. Ele faz questão de dizer que não é um profissional, mas as suas fotos realmente deixam-nos sem palavras. (Pesquise no Instagram @quotidianoss e julgue por si próprio).

O projeto é extremamente interessante: passar uma manhã com um estranho e fotografá-lo no dia a dia, no natural, nu. Eles não são modelos, mas pessoas comuns.

Christian sempre foi apaixonado por fotografia, desde criança, e conta quando aos 15 anos a sua câmera foi roubada com o filme ainda dentro e algumas fotos incluindo as duas primeiras fotos de nus. Desde então, este projeto ficou suspenso até hoje. Christian conta que teve que lutar contra uma série de preconceitos e que precisava de tempo para confessar, até para a própria família, que o nu foi o tema que escolheu para as suas fotografias. Um projecto que já dura desde cerca 5 anos e que nos dá imagens dum quotidiano natural, sem filtros, sem construções.

Um mundo a ser descoberto, enfim, o de Christian.

Nesse ínterim, a chuva nos deu um momento de descanso e Chopin não para de pular nas pernas de Christian: é hora duma caminhada.

E então os acompanhamos e aproveitamos para conversar mais sobre a vida, as muitas mudanças, os projetos do futuro e, sobretudo, sobre a nova e maravilhosa aventura da sua recente paternidade.

Aqui estamos, é hora de deixá-los ir, mas primeiro ainda tenho uma curiosidade: “E o contrabaixo?”

 Está pendurado na parede de uma fazenda na Colômbia. Quem sabe, um dia Christian vá buscá-lo, ou talvez fique ali como um sinal de onde tudo começou.

Antes de se despedir, Christian diz-nos que no seu futuro ainda há viagens, ainda lugares por descobrir e onde se desafiar. Afinal, a arte é uma evolução contínua. Mas entretanto podemos ainda desfrutar da sua voz nos teatros de Lisboa, uma experiência a não perder, a de nos deixarmos levar pelo ambiente mágico da ópera e pela voz melodiosa do nosso Christian.

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